quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Pedaços


"Premonição"
Salvador Dali
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PEDAÇOS

Há tanto tempo me perco,
há tanto tempo me acho,
nem mesmo sei dos meus medos,
nem onde estão meus pedaços.
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Clóvis Campêlo
Recife, 2006
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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Para Lennon sem McCartney


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PARA LENNON SEM McCARTNEY
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A revolução nós a fizemos
deitados no assoalho do estúdio
(um atrapalho no trabalho).
Disparamos sonhos a esmo
e nem mesmo vimos as
mudanças se consolidarem.
Oh, garota,
talvez você nem
saiba qual a razão!
Sempre fui solidão
e queria morrer.
Nuvens negras sobre
a minha cabeça,
prenúncios de sofreguidão
e nós apenas queríamos
a revolução.
Oh, meu bem,
esqueça Mao e Guevara,
eles nos custaram
os olhos da cara
e nem mesmo houve
céu ou terra,
inferno ou paraíso.
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Clóvis Campêlo
Recife, 2009
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Delírio azul


Foto: Clóvis Campêlo/2000
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DELÍRIO AZUL

Entre os rios e o mar, Recife é um delírio azul. Dos sonhos dos homens, fez-se a cidade que sempre encantou poetas e imperadores. Dos sonhos dos homens e dos aluviões, matéria orgânica semeando o futuro sobre as águas.
Entre risos e bares, Recife é um transe etílico. Do porre dos poetas, fez-se a literatura nem sempre bem comportada que alicerçou a sua fama de reduto de bardos e bêbados. Em bandos ou solitários, a margear as águas nem sempre límpidas do mangue.
Sobre rios, pontes e overdrives, Recife é sinuosidade, é extravagância, superação de limites. Na sua concepção, em nada, porém, difere de todas as outras cidades do mundo. É equívoco, prisão, neuroses, contenção. Recria-se sempre sob a ótica do pragmatismo capitalista, a grana erguendo e destruindo coisas belas, sequelas.
Entre o passado e o futuro, Recife é o presente nem sempre bem compreendido. Onde estarão os botos do Capibaribe, espantados pelo vinhoto das suas usinas de açúcar e pelo murmúrio incessante das suas máquinas modernas? Recife perde-se na sua própria contemporaneidade. Que cidade é essa? Deitada para sempre no berço esplêndido da planície aluvional, a esperar com paciência o beijo libertador do cavaleiro do futuro.
Quantas vezes nos renderemos à luz do luar secular? Quantas paredes se ergueram entre ela e o seu solo úmido? Quantos séculos ainda esperaremos pelo que nunca existiu, pela essência para sempre perdida do passado, dos casarões malassombrados, do vento morno do verão que nunca nos açoitou as faces?
A gente precisa ver o luar!
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Clóvis Campêlo
Recife, 2009
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domingo, 20 de dezembro de 2009

Feliz Natal!


Foto: José Rodrigues Correia Filho
Arte: Angélica Teresa Almstadter
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FELIZ NATAL !
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A todos os amigos, poetas ou não, um Natal repleto de Coca Cola (já é tradição e, além disso, inventaram o Papai Noel), chesters transgênicos (há como fugir deles?), panetones sem superfaturamento, cervejas geladíssimas e principalmente muita felicidade e a compreensão de que mesmo nesse mundo repleto de mentiras, equívocos, falsidades e imperfeições podemos exercitar diuturnamente o lado bom do nosso ser.
Sem isso, a vida não vale nada.
Tudo de bom e verdadeiro, gente!
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Clóvis Campêlo
Recife, 2009
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Vai


VAI

Vai que a juventude
dessa brisa
espanta
e nem um pouco
me afugenta
a dor.

Vai que a inquietude
dessa vida
é tanta
que nem um louco
lhe entende
a cor.

Vai que a negritude
dos teus olhos
é manta
que me acoberta
e aquece
de amor.

Vai que um dia
tudo se transforma
e se agiganta
e nós seremos
o sol a se por.

Vai!

Clóvis Campêlo
Recife, 2008
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O olhar


Foto: Clóvis Campêlo/1993
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O OLHAR

Aquele olhar, ao mesmo tempo, era chegada e despedida.
Talvez fosse apenas uma velha senhora, tal qual Carolina, na janela, vendo passar o tempo que ainda lhe restava.
Mas, nele havia um rastro tamanho de dignidade.
Era um olhar, ao mesmo tempo, sereno e inquisidor, indagando, sem ódio e sem medo, sobre o sentido da vida, sobre o acaso de estarmos ali, naquele momento, descobrindo-nos mutuamente.
Afinal, pelas ruas de Juazeiro do Norte, em dias de Padim Ciço, são muitos os transeuntes, crentes ou não, que por ali circulam em busca de si, da fé, dos céus.
É sempre um povo sofrido, calejado, euclides e forte. Antes de tudo, sertanejo.
Pelas ruas de Juazeiro do Norte, em Festa de Finados, sempre construimos um pouco mais da identidade do nosso povo, os nordestinados.
A imagem daquela velha mulher, na porta da casa simples de taipa, com as mãos serenamente cruzadas e inertes, depois de uma vida de lida e trabalho para sobreviver, trouxe, para nós, a constatação da nossa brasilidade.
Salve Juazeiro, salve Padim Ciço, mais uma vez salve o povo brasileiro!
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Clóvis Campêlo
Recife, 2009
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O círculo e o quadrado



Foto: Clóvis Campêlo/1996
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O CÍRCULO E O QUADRADO
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Há muito tempo que estava querendo escrever sobre o Movimento Sem Terra. Não queria, no entanto, emitir idéias enciclopédicas, formadas em cima de informações repassadas pelos órgãos (de)formadores de opinião ou de informações preconceituosas.
Queria escrever um texto que retratasse uma experiência pessoal, construtiva, vivida por mim dentro do movimento, mesmo que essa referência estivesse no passado, há alguns anos atrás.
A fotografia acima foi feita em 1996, em um acampamento do MST no município de Condado, na Zona da Mata Norte do Estado de Pernambuco. Essas crianças eram filhos de agricultores ali acampados e que esperavam a regularização da terra para começar a produzir.
Nessa época, eu trabalhava na Secretaria de Imprensa do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco, que sempre prestava um apoio logístico e financeiro ao movimento.
O que me atrai na fotografia é a singeleza da sua composição. No seu despreendimento infantil, o menino não notou que compunha o equilíbrio da foto com as duas figuras geométricas: o círculo, formado pelo pneu, e o quadrado da camiseta, além, é claro, da simpática vaquinha malhada.
Essa criançada alegre, filhos de pessoas excluídas do sistema de produção da monocultura da cana, na sua alegria, em nada se diferenciavam de qualquer outra criança, independente da sua condição ou classe social. Estavam ali acompanhando os pais, na esperança de dias melhores e de uma intregração social mais justa.
No precário acampamento, todo montando em barracas feitas de lona de plástico preto, havia ainda uma escola para eles, um posto médico improvisado e uma pequena igrejinha.
Na terminologia do MST, o acampamento difere do assentamento porque está montado em terras que ainda não foram desapropriadas e distribuídas.
Indiferente a isso, a criançada cumpria o seu papel de simplesmente ser feliz, além de aprender que a vida comunitária, embasada no suprimento das verdadeiras necessidades do homem para sobreviver, pode ser exercida com plenitude e dignidade.

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Clóvis Campêlo
Recife, 2009
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domingo, 13 de dezembro de 2009

Torto


Foto: Clóvis Campêlo/1992
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TORTO
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Quando a morte te trair
e enganar a inteligência,
não pense em pedir clemência,
nem peça para sair.

Vista-se com domingueira,
enfeite o leito com flores,
disfarce com mil odores
a hora que é derradeira.

No entanto, se alguém em "ais"
liberta gritos primais
em ânsias de despedida,

mostre-lhe um riso morto
- o certo se escreve torto -
e apenas é o fim da vida!

Clóvis Campêlo
Recife, 1991
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Morrer deve ser tão frio


Foto: Clóvis Campêlo/2004
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MORRER DEVE SER TÃO FRIO

Morrer deve ser tão frio,
solidão no cais do porto,
como as águas de um rio
desaguando num mar morto.

Fechando o início de um cio,
findando um trajeto torto,
alívio, talvez, desconfio,
depois, talvez, desconforto.

Talvez, quem sabe, um fio
cortando uma vida, aborto;
talvez, quem sabe, um envio,

o exílio de um rei deposto.
Morrer deve ser tão frio,
solidão no cais do porto.

Clóvis Campêlo
Recife, 1994
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domingo, 6 de dezembro de 2009

O peru de Obama e as viúvas do IPASE


Obama perdoando o perú
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CRÔNICAS RECIFENSES
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O PERU DE OBAMA E AS VIÙVAS DO IPASE
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Clóvis Campêlo
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Todos se lembram: o primeiro presidente norte americano negro perdoôu o peru branco. O nome do bicho: Courage. Veio da Carolina do Norte, onde nasceu, numa fazenda especialista em criar perus, para enriquecer o jantar do Dia de Ação de Graças do presidente.
O peru anistiado, porém, não viverá o resto dos seus dias na Casa Branca. Foi encaminhado para a Disneylândia, onde, com certeza, será transformado em mais uma atração turística.
Consta que essa história de presentear o presidente com um peru vem desde o presidente Eisenhower, em 1953. Transformou-se numa tradição. Diz ainda a lenda que o primeiro presidente a poupar o peru presenteado foi John Kennedy, nos início dos anos 60, quando o sonho dourado americano ainda não se desvanecera.
Enfim, histórias da Carochinha do Norte que nós, brasileiros e americanos do Sul, desde a mais tenra idade, escutamos.
Mas, o que teria o peru americano de Obama a ver com as saudosas viúvas do IPASE?
Lembro que nos anos 60, quando eu ainda era um menino e jogava bola nas areias da praia do Pina, era costume do meu pai, em dezembro, levar para casa os perus que comprava ou mesmo recebia de presente das viuvinhas que atendia no extinto IPASE. Aqueles pobres e comprometedores perus, já que dona Tereza, minha mãe, sempre via naquela benevolência uma possibilidade de traquinagem extra conjugal, nunca foram perdoados. Todos os dias, depois do almoço, eu e meu irmão, sentávamos no batente do terraço que havia na cozinha para cevar os perus. Tudo o que sobrava das refeições do dia e da véspera era “enriquecido” com água e farinha de mandioca e literalmente enfiado garganta a dentro dos animais, sem chance nenhuma de defesa ou contestação. Aos perus violentados, só restava a obrigação de digerir e engordar.
Como naquela época ainda não havia os aleijões transgênicos e congelados dos chesters, quando o Natal chegava os perus, com seus fígados engordados pela alimentação forçada, eram sacrificados e colocados na mesa para o deleite da família e dos vizinhos que sempre participavam, intercambiando quitutes e votos de felicidades.
Lembro disso sem nenhum sentimento de culpa. Achava e ainda acho legítimo todo aquele ritual que unia a família, terminava por dissipar as desconfianças maternas e garantia uma ceia de Natal decente e condigna.
Eramos felizes e não sabíamos que o futuro nos traria costumes diferentes e saudades de coisas simples que pareciam ser eternas.
Hoje já não existem quintais, perus a serem engordados ou mesmo vizinhos amigos e participativos, ávidos para demonstrarem a afeição e o o respeito que alimentavam aquela relação de amizade e boa convivência.
Com toda sinceridade, sinto falta disso.
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